AS ARMAS NÃO ACABAM COM AS MANIFESTAÇÕES
A recusa sistemática do governo e do presidente Daniel Chapo em dialogar com Venâncio Mondlane é um erro estratégico de graves consequências políticas. Mondlane, amplamente reconhecido como “presidente eleito pelo povo”, continua a ser uma figura central da resistência popular, e ignorá-lo apenas reforça a sua posição.
Negligenciar Mondlane significa desvalorizar a voz de milhares de cidadãos que contestam a legitimidade do actual governo. Um verdadeiro líder político deve ter a capacidade de escutar e responder aos anseios do povo. O diálogo não é um sinal de fraqueza, mas sim de maturidade política. A ausência de diálogo não só mina a já frágil legitimidade do governo, como também perpetua a instabilidade. Cada dia sem negociação fortalece a narrativa de exclusão e repressão, aprofundando o fosso entre o poder instituído e a população. A repressão pode conter momentaneamente as manifestações, mas não elimina o descontentamento subjacente. Pelo contrário, acirra ânimos e alimenta a mobilização popular.
Embora durante a campanha eleitoral e antes da tomada de posse, Daniel Chapo tenha projectado uma imagem pacifista e conciliadora, em apenas um mês no cargo, suas declarações e acções apontam para uma direcção oposta, assinalando uma disposição para reprimir violentamente a dissidência política.
O seu pronunciamento, no qual afirmou que vai acabar com as manifestações, mesmo que seja preciso jorrar sangue, revela uma postura belicista e autoritária que contrasta fortemente com sua postura inicial. Posteriormente, tentou relativizar suas palavras, alegando que foram tiradas de contexto para manipular a opinião pública. Alegou ainda que sua intencionalidade era condenar apenas manifestações “ilegais, violentas e criminosas”. Isto levanta questões jurídicas e democráticas fundamentais: existem manifestações ilegais num contexto onde a Constituição protege o direito de protesto? As manifestações são um mecanismo de expressão legítimo, muitas vezes a única forma de sectores marginalizados se fazerem ouvir. O papel do Estado deveria ser de mediação e protecção desse direito, e não de repressão violenta.
A escalada da violência por parte das forças de segurança, sob ordens do governo de Chapo, agrava ainda mais a crise política. O Comandante-Geral da Polícia reforçou a intenção governamental de responsabilizar os “organizadores” de manifestações que, segundo ele, paralisam a vida sócio-económica do país. Essa declaração ignora um facto crucial: a violência do Estado tem sido um factor determinante na intensificação dos protestos. Se a polícia não tivesse reprimido com balas e gás lacrimogénio as manifestações iniciais em homenagem a Elvino Dias, os protestos provavelmente não teriam tomado proporções tão vastas. A repressão estatal contribuiu para radicalizar os manifestantes, ampliando o movimento e a insatisfação popular.
Chapo tem uma responsabilidade política clara neste contexto. A repressão violenta é um erro de governação que apenas aprofunda a crise, tornando inviável qualquer solução pacífica e negocial. Para restaurar a estabilidade e credibilidade do seu governo, Chapo tem de rever urgentemente a sua postura e dar instruções claras para que a polícia abrande a repressão.
O uso da força como resposta a uma crise política não é solução, mas sim uma demonstração de fraqueza e medo por parte do governo. Um líder forte é aquele que reconhece os desafios do seu país, que escuta o povo e que promove soluções pacíficas e inclusivas. A história mostra-nos que regimes que apostam na repressão para se manterem no poder acabam por criar as condições para a sua própria queda. Daniel Chapo ainda tem a oportunidade de mudar o rumo da sua governação, mas para isso precisa de abandonar a lógica da repressão e apostar numa verdadeira construção democrática e dialogante.
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Jornalista. Investigador associado no Institute for Poverty, Land and Agrarian Studies, University of the Western Cape. Membro co-fundador e Director Executivo da Alternactiva - Acção Pela Emancipação Social.

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